domingo, dezembro 20, 2009

Flashback

Já havia postado este texto antes e por alguns secretos motivos acabei deletando. Mas com o girar das coisas, aí está ele novamente, como mais um flashback...
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(ano da França no Brasil)
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Acordei assustado pelo barulho estridente do despertador, engoli o café da manhã e sai para trabalhar. Sempre! Após o sinal de ida, fui. Sem pestanejar. Cansa. Cansei. Já estou cansado. No ponto de ônibus, enquanto esperava o circular, crianças a caminho da escola circulavam livremente. Enjôo – é assim todas as manhãs. Do outro lado da rua ouço uma buzina. “Quer carona?”, um grita. Na hora não enxerguei bem quem era, mas numa situação dessas quase nada se dispensa, principalmente se o sono ainda pesa sobre as pálpebras. “Quer carona?”, repetiu. “Ufa, hoje escapo de mais um atraso.”, pensei. Cartão de ponto pontual. Pontuado! Entrei no carro - o homem ao volante: um (des) conhecido do trabalho - e sentei-me no banco de trás. “Bom dia!” “Bom dia!” “Bom dia!”, dissemos todos. O rádio estava ligado. Música dos anos 80 com o carro a 70. “A semana começou assustadora!”, puxei assunto e... Silêncio, exceto pelo flashback matinal. No banco da frente mais um pontuado. Cartão! Mudo também. Desse me lembro de ter trocado algumas palavras pelos corredores do trabalho. Onde trabalhamos ninguém conhece ninguém. Especulam-se uns sobre os outros. Ou pelo menos eu não conheço ninguém, ou eu especulo sobre os outros. Enjôo – é assim todas as manhãs. Pelo retrovisor do carro avistava o rosto do homem ao volante. Carlos, Cássio, Ca... Tentava sem sucesso lembrar-me do nome dele. Ele: poucas palavras, semblante sério, barba cerrada, alguns fios de cabelos brancos. Talvez uns 36 a 38 anos. Trabalhamos no mesmo local há meses e apenas hoje reparei em seu rosto. Enquanto os meus olhos saltavam contra o retrovisor, os olhos dele concentravam-se na direção. “E como ele é bonito!”, pensava enquanto observava o formato do nariz e dos olhos e da boca. E no rádio: Lionel Richie. “Bonito e Cafona!”, completei o pensamento. Por alguns segundos, os olhos dele encararam os meus pelo reflexo do espelho. Olhares perdidos. “É provável que o Sarkozy venha”, desconcertado comentei com os olhos ainda fixos no retrovisor. “Quem?”, respondeu o desconhecido sentado à frente que até então se mantinha distraidamente calado. “Sarkozy”, repeti. O homem ao volante, que até o momento não conseguia lembrar do nome, respondeu me encarando diretamente através retrovisor: “Nesse horário só toca flashback.” No mesmo instante desviei o olhar, calei-me e, enjoado, engoli a seco. Foi melhor ter aproveitado o restante da carona calado mesmo.
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[renato ribeiro]