quarta-feira, agosto 19, 2009

Mr. Bean!

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A semana escapou-me aos dedos. Escorreu por entre as frestas mal fechadas. Descuidadas. Aos poucos vê-se a rotina tomando o seu lugar, demarcando novamente um território que já era seu. Carimbo! Nela as horas se confundem com as roupas, que se confundem com os papeis, que se confundem com os amigos, que se chocam constantemente com a falta de horas. Mas é isso, carimbo! O cartão de ponto é marcado como a vaca muito antes do abate. A dieta complementar “de engorda” para essas vacas de marcas sem qualquer sutileza - além do ‘ruminânça’ infernal -, concentra-se em sentar-se em poltronas confortáveis frente à TV. Na TV aberta: barbaridades apresentadas no horário supostamente nobre. Pelo menos não há o que ruminar, cospe-se inteiro. Controle nas mãos. Zapear de canal em canal: novelas, telejornais, reality shows... sem opções, cedi a uma antiga série de humor: Mr. Bean. Boca cheia, mas não é preciso deglutir nada. Só ver – e ora ou outra rir um pouco. A primeira vista ele preenche o olhar. Inusitado, pouco previsível antes dos dez primeiros minutos. Enfim, por algumas noites em que não se tem mais o que devorar, devora-se ele, o Mr. Bean.

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A sexta-feira começou a passos largos. Despertador que não desperta, água que não ferve, telefone que não pára de tocar – há momentos em que prefiro o tédio. Carro com pouca gasolina e sem tempo de passar no posto: ônibus. Meu humor já não é dos melhores! No ponto, sinal para a condução. Assim que ponho os pés dentro do ônibus, deparo-me com dezenas de rostos semelhantes. Talvez a sexta-feira, talvez o cansaço, talvez a extravagância da noite anterior. Lá está ele... aqui estão vários deles. Mr. Bean (s). Ou encantei-me demais com o que deveria ser apenas humor, ou a sexta-feira me deu mais uma coisa para ruminar.

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Deveria parar. Chega de assistir o Mr. Bean. Os rostos se multiplicaram durante a semana. Cópias carbonadas, algumas de péssima qualidade. Agora tenho que deglutir. O problema será fugir do abate.

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Após uma segunda-feira gorda, já de estômago cheio e completamente farto, sentei-me frente à TV com a intenção de tornar-me mais leve para a semana que mal iniciara. Horário “nobre”. Sem muito rodeio estaciono novamente nele: o Mr. Bean. Ibope alto demais para quem não merece. Corpo largado, barriga estufada e mais uma ‘ruminânça’ noturna completamente desnecessária. Ele é até engraçado, admito timidamente. Talvez estivesse na hora de engolir o Mrs. Been... (ops, grafia errada) Talvez estivesse na hora de engolir o Mr. Bean. Já que os rostos se multiplicam cada vez mais, o melhor é começar a digerir. Engulo e... blerg! Regurgitei.

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Na noite seguinte, antes mesmo de sentar-me na poltrona, pensei: “Ah! Definitivamente não dá. ES-PA-LHA-FA-TO-SO demais”. Eh, por ainda ter a marca sutil me mantenho longe do abate.
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[renato ribeiro]

2 comentários:

Amanda disse...

Seu texto é escandalosamente belo. Da beleza do 'absurdo', daquela que nos provoca um riso nervoso de quem não tem como discordar e ri da irremediável verdade contida nesse humor triste.
Incrível como o tempo só te faz bem, a cada dia mais talentoso, a cada dia mais maturado, a cada dia mais.
Muito bom te ler. E leio sempre.
Beijinhos.

Adélia Carvalho disse...

Nesse texto você criou uma estrutura completamente nova, prazerosa de acompanhar...Gostei demais. Beijos