quarta-feira, setembro 02, 2009

Fragmento!

.
Os sapatos de salto apertavam-lhe a ponta dos pés. Lábios sem cor. Cabelo desgrenhado. A bolsa presa junto ao corpo. Seus passos largos denunciavam seu desejo de chegar em casa. Banho quente, roupas limpas e leves. Café e bolacha água e sal. Seus pensamentos se esvaiam pelas ruas. Domésticos! Eram quatro da manhã. Gatos nos telhados. Olhos como brilhantes jogados num canto de pouca luz. Na rua apenas prostitutas e vagabundos. O corpo dessa mulher fora devorado. Marcas nos braços, pescoço, nuca. Desgastado inteiramente. O seu corpo preso aos seus passos, a suas tensões, aos seus falsos brilhantes. Só. Além disso nada mais, somente o desejo de chegar em casa que crescia a cada aperto dos sapatos de salto. E como eles apertavam...
.
.
[renato ribeiro]

quarta-feira, agosto 19, 2009

Mr. Bean!

.
A semana escapou-me aos dedos. Escorreu por entre as frestas mal fechadas. Descuidadas. Aos poucos vê-se a rotina tomando o seu lugar, demarcando novamente um território que já era seu. Carimbo! Nela as horas se confundem com as roupas, que se confundem com os papeis, que se confundem com os amigos, que se chocam constantemente com a falta de horas. Mas é isso, carimbo! O cartão de ponto é marcado como a vaca muito antes do abate. A dieta complementar “de engorda” para essas vacas de marcas sem qualquer sutileza - além do ‘ruminânça’ infernal -, concentra-se em sentar-se em poltronas confortáveis frente à TV. Na TV aberta: barbaridades apresentadas no horário supostamente nobre. Pelo menos não há o que ruminar, cospe-se inteiro. Controle nas mãos. Zapear de canal em canal: novelas, telejornais, reality shows... sem opções, cedi a uma antiga série de humor: Mr. Bean. Boca cheia, mas não é preciso deglutir nada. Só ver – e ora ou outra rir um pouco. A primeira vista ele preenche o olhar. Inusitado, pouco previsível antes dos dez primeiros minutos. Enfim, por algumas noites em que não se tem mais o que devorar, devora-se ele, o Mr. Bean.

......................................*********
A sexta-feira começou a passos largos. Despertador que não desperta, água que não ferve, telefone que não pára de tocar – há momentos em que prefiro o tédio. Carro com pouca gasolina e sem tempo de passar no posto: ônibus. Meu humor já não é dos melhores! No ponto, sinal para a condução. Assim que ponho os pés dentro do ônibus, deparo-me com dezenas de rostos semelhantes. Talvez a sexta-feira, talvez o cansaço, talvez a extravagância da noite anterior. Lá está ele... aqui estão vários deles. Mr. Bean (s). Ou encantei-me demais com o que deveria ser apenas humor, ou a sexta-feira me deu mais uma coisa para ruminar.

......................................*********
Deveria parar. Chega de assistir o Mr. Bean. Os rostos se multiplicaram durante a semana. Cópias carbonadas, algumas de péssima qualidade. Agora tenho que deglutir. O problema será fugir do abate.

......................................*********
Após uma segunda-feira gorda, já de estômago cheio e completamente farto, sentei-me frente à TV com a intenção de tornar-me mais leve para a semana que mal iniciara. Horário “nobre”. Sem muito rodeio estaciono novamente nele: o Mr. Bean. Ibope alto demais para quem não merece. Corpo largado, barriga estufada e mais uma ‘ruminânça’ noturna completamente desnecessária. Ele é até engraçado, admito timidamente. Talvez estivesse na hora de engolir o Mrs. Been... (ops, grafia errada) Talvez estivesse na hora de engolir o Mr. Bean. Já que os rostos se multiplicam cada vez mais, o melhor é começar a digerir. Engulo e... blerg! Regurgitei.

......................................*********
Na noite seguinte, antes mesmo de sentar-me na poltrona, pensei: “Ah! Definitivamente não dá. ES-PA-LHA-FA-TO-SO demais”. Eh, por ainda ter a marca sutil me mantenho longe do abate.
.
[renato ribeiro]

quinta-feira, julho 30, 2009

Comprimido!


Os olhos pesados, as pupilas dilatadas. Lacrimejantes. A face escorre como tinta fresca. Deforma. Informa. Aos que olham, apenas a fumaça. Bafo quente de quem espera o sono tomar conta. Corpo exaurido, murcho. Sem líquidos. Sobre o colchão, papéis datilografados. Poesia incompleta; sentimentos pequenos. Acúmulo de desejos pouco sentidos. Sentimentos comprimidos e um comprimido. Na noite anterior, este mesmo corpo que escorre em si, estremeceu. “A poesia tem que sair do corpo em gozo”, pensava. Mas o tremor em corpo alheio não permaneceu a ponto da sensação penetrar por entre os poros. Fruição desconstruída. Efêmera. Tentativa frustrada de preencher com palavras ainda opacas uma folha amarelada. Sonolência e letargia. Frases frias e ásperas aportados em papeis sobre o lençol, a sensação interrompida pelo sono implacável, escurecem em efeito comprimido de uma sensação qualquer, escorrendo vagarosamente sobre o gozo sem efeito.

[renato ribeiro]

quarta-feira, julho 01, 2009

Anúncio!

Na manhã do dia 19 de junho, saiu no jornal, entre o obituário e os anúncios de móveis usados a seguinte nota: “Eu, no dia 25 de junho, pontualmente às seis da tarde no centro da cidade, farei algo que mudará o rumo da vida de todos de forma drástica. Nada mais será como antes”. De certo ele pensou que um pequeno anúncio de quatro linhas, fosse passar despercebido. Anunciou mesmo só para não ter como hesitar na hora H. A palavra havia de ser dada, ser afirmada e sobretudo, irredutível. Por isso um anúncio. Caso alguém procurasse nos registros do jornal, lá estariam as palavras deste senhor. Surpreendentemente, na manhã do dia seguinte à publicação da nota, choveram cartas à redação do jornal. O que deveria ser sutil e em certo ponto imperceptível, alastrou-se e chamou a atenção de centenas de pessoas. Nas cartas enviadas a edição do jornal uma pergunta era unânime: “Quem é esse que propõe uma mudança dessa categoria?”. Absolutamente todos queriam saber. Todos. E sem poder dar muitas respostas, a redação colocou uma rápida nota na edição do dia seguinte: “Não temos informações para dar. Favor aguardar a tarde do dia 25 de junho”. A curiosidade se alastrou ainda mais, pois por puro descuido – ou intencional mesmo, vai saber! - a nota saiu na primeira página do jornal. O interesse por esse sujeito ficou tão grande que tomou proporções inimagináveis. Uns achavam que poderia ser um milionário excêntrico num helicóptero jogando notas de cem ao ar, outros que um sujeito atiraria na própria cabeça em praça pública aproveitando a hora do rush... Absurdos eram ditos a respeito do sujeito. Os programas de TV, aproveitando a nova onda, passaram a oferecer uma recompensa a quem tivesse qualquer informação sobre o misterioso sujeito e a intrigante ação. É, já havia repercutido nacionalmente. Oportunistas não perderam tempo e tentaram de tudo, mas nada de concreto apresentaram aos programas. Muitos até saíram sob uma enxurrada de vaias da platéia sedenta por informações. Na programação da rádio da cidade, mas de alcance nacional, foi criado um especial só para falar das curiosidades que cercavam o mistério. Bolão havia aos baldes, uns já chegavam ao prêmio de cem mil, tamanho era o interesse da população... e assim prosseguiam as absurdas manifestações que só alimentavam a curiosidade da população nacional. Chegou o dia 25 de junho, todos passaram a manhã e parte da tarde apreensivos. Contavam as horas, minutos, segundos. Nesse dia ninguém saiu de casa, as ruas encontravam-se completamente vazias. Televisões ligadas, rádios sintonizados... No meio da tarde, por volta das quatro e pouca, quando ninguém mais havia como controlar a ansiedade, ouve-se no rádio e vê-se na TV a notícia bombástica: “Morre o Rei do Pop”. Olhos arregalados! Nessa hora não se ouviu um único zumbido. Todos se encontravam em absoluto estado de choque. Pasmaceira total! A notícia consumiu a todos completamente. Nada mais era dito sobre coisa alguma além de: “Morre o Rei do Pop”. E enquanto isso no centro da cidade, o sujeito que há uma semana publicou o anúncio, caminhava lentamente a fim de cumprir o que havia prometido. E pontualmente às seis da tarde, enquanto todos estavam entretidos com a nova notícia, ele fez o que mudaria a vida de todos, pondo fim ao mistério que por dias pairou no ar.

quinta-feira, junho 25, 2009

Auto-retrato!

Cores cansadas, cortadas, abafadas.
Cores de todos os sentidos e sabores.
Cores que preenchem, que consomem e engolem,
Cores de várias cores. Múltiplas cores.
Cores em tábuas rasas,
Pinturas em tábuas verdes
Auto-relevo tratado.
Auto-retrato manchado em cores.
Cores idiossincrásicas.

terça-feira, junho 23, 2009

Peixes e pássaros!

.
[imagens emprestadas]
.
Peixes assim como pássaros voam na imensidão do mar – pássaros mergulham. Uns afogam-se no ar e outros sufocam-se nas correntes das águas escuras e frias em que vivem. Peixes e pássaros procuram sempre por outros semelhantes para deslizarem por entre caminhos desconhecidos e quando perdidos se tornam presas fáceis de predadores maiores e mais espertos. Os pássaros assim como os peixes estão presos no que lhes servem como símbolo de liberdade. No ar e na água – os peixes afogam-se, os pássaros sufocam-se.
.
[renato ribeiro]
.
.
.
Confira o conto "Quando nos casarmos" do escritor e amigo Carlos Renatto.

quarta-feira, junho 10, 2009

Embarque e desembarque!

Embarques e desembarques. Toc, toc, toc. O salto do sapato ecoa longinquamente. Malas entupidas de pertences pessoais etiquetadas e carregadas ao bagageiro. Ali ninguém parece conhecer ninguém e nesse descaso de desconhecidos, salvam-se apenas acenos de cabeça. Sempre! Freqüência e rotina dos horários. Sempre! Mesmoshoráriosmesmasfeiçõesmesmos-nos. E o acaso fica por conta do toc, toc frequente. Toc...Volta apressada a mulher como se os segundos a engolissem e a regurgitassem. No fim das contas tudo se resume a isso: batidas de sapatos no lugar de conversações vazias. Motores ligados, todos se acomodam ligeiramente nos ônibus enfileirados. “Rumo à França com segurança!” – grita um apressado. E todos quase que no mesmo instante se entreolham. Desconhecidos e desconhecidos. Se fosse um embarque aéreo seria ainda mais inoportuno. De semelhança aparente entre eles apenas a pressa, a não ser que o ônibus de fato desapareça nas curvas da estrada, ou num verde oceânico de folhas queimadas pelo frio. E eu solitariamente sentado nos banquinhos da rodoviária, conservo meus olhares perdendo-se por entre rostos que se entreolham discretamente. MP3, MP4, MP5010, todos enganosamente disfarçam a curiosidade de saber os motivos pelos quais os horários se cruzam. Embarque na A. Desembarque na H e novas pessoas. Entre rostos desconhecidos um que sobressalta ao acaso, como se houvesse comigo hora marcada. Transporte. Trans. Porte. Calça jeans, camisa branca, boné, olhos translúcidos e fone de ouvido. MPalgumacoisa. Toc, toc, toc. E a mesmíssima mulher agita-se ainda mais ao encontrar este “porte” com um abraço invejável. A sensação de esperar o regresso talvez seja melhor que a de partir sozinho, ou a de voltar. Motores ligados. Embarque. “Rumo à França com segurança”, pensei silenciosamente comigo. Afinal, quando não tem por quem ir ou voltar, perder-se em novos ares soa tentador.
.
.
[renato ribeiro]

sábado, maio 23, 2009

"A megera domada"




"A megera domada"
Direção: Airá Fuentes
Atuação: Iza Lanza e Renato Ribeiro
Música: Fabrício Malaquias e Sabastião Nolasco
Iluminação: Camila Emílio
Cenário: Grupo Uai!
Fotografia: Ronald Péret e Kherian Gracher
.
.
Cena curta apresentada na V semana de artes - Defenda a sua arte da Universidade Federal de Ouro Preto. Vencedora na categoria melhor esptáculo.

domingo, maio 17, 2009

Tempo quente!

Um aceno pela conta. Tempo quente! Tudo em volta dissolvendo. Na padaria leio um jornaleco vagabundo. Jornal: R$ 0,25. De super e interessante nada. Nada que se possa levar a sério. Uma ou outra notícia enquanto futilidade perde-se de vista. Mas fazer o quê? O tempo precisa passar. Sobre a mesa: copo de plástico transbordando de café quente e ralo, o cinzeiro em brasas. Café + cigarros: R$ 4,25. De morno apenas eu. Na parede o relógio derretendo assim como em Dali, a minha volta pernas que trançam e olhares ao horizonte. Todos derretendo! E é melhor assim. De pernas e olhos estou cheio. Transbordando como o café ralo, amornado, amortecido, assim como as batidas em meu peito dissolvido. “Clima confuso”, ressalta a manchete do jornal que parece esfarelar-se em minhas mãos, como se fosse para mim um indicativo. O tempo precisa passar antes que tudo se misture e meu peito esfrie. Água no norte, geada no sul e os porcos: no espaço. Conta sobre a mesa: R$ 4,50 + uma caixinha de fósforos. R$5,00 de troco de uma nota de R$10,00 dissolvida. A solução talvez esteja em migrar para o sul. Em tempos frios eu pareceria arder, nem que seja por conta da gripe. Então as coisas deixariam de dissolver diante dos meus olhos como se a culpa fosse minha. Amornado, amortecido. E talvez seja! Mas fazer o quê, se o tempo queima e o dia dissolve continuamente?

domingo, maio 03, 2009

Em vermelho!

Tão grande e suave quanto os grãos de sal na água do mar.
.
aventura descompromissada no campo das imagens
[fotografia modificada assustadoramente no photoshop: renato ribeiro]