quinta-feira, agosto 11, 2011

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Domingo. Eu recostado no sofá. Copo cheio de café para espantar o restante do sono que pesa sob as pálpebras. O dia nublado. Feio. Copo pela metade. Pego o jornal. Do sofá volto para a cama. Assim é melhor, pelo menos não fico de mau humor. Folheio sem muitas expectativas. As noticias já estão velhas. Nada de novo no jornal de hoje. Greve. Novela. Acidente. Apenas domingo. No geral, os classificados me parecem ser o mais interessante. Talvez pela sensação de promessa fácil, ou de desejo delivery. Sem assombros. Sem sacrifícios. Sem castrações. Domingo!



“Procuro uma imagem. Destas que sejam verdadeiras. Genuína em sua textura. E de cor forte de preferência. Não quero nada que seja pré-fabricado. Poses laterais de pescoço virado. Quero ordem sim, mas nascida da própria sombra. Sombras! Embora a luz seja o fundamental. Bom gosto? Bom, gosto se releva. Gosto de relevos. Montanhas cheias. Ares e chão. Procuro uma imagem, apenas uma. Não precisa ser inteira, mas que pelo menos complete o pensamento. A Gestalt. Uma imagem apenas, seja ela em forma de pergunta ou resposta.”

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[renato ribeiro]

segunda-feira, abril 25, 2011

No gerúndio.


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Eu estando andando vendo buscando caminhando virando caminhando tentando inovando... fracassando retornando olhando repetindo diferenciando anotando registrando frustrando sufocando silenciando... virando vendo, olhando indo...
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[renato ribeiro]

sexta-feira, março 11, 2011

Mais um cigarro e outra xícara de café!

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Ela levantou-se da cama e caminhou até a cozinha para preparar um café. Cigarro em uma das mãos, a xícara cheia noutra. A casa estava vestida de poeira. Há dias que não se abriam as janelas. Os jornais se acumulavam sem sequer serem lidos. Nada acontecia naquela casa.

As rachaduras no teto de seu quarto permaneciam iguais, a unidade também. Tudo por ali estava sonolento. Sentada à mesa, após ter acendido mais um cigarro e lhe servido outra xícara de café, ela revisava cuidadosamente os seus não acontecimentos, seus sonhos desfeitos, seu peito vazio. Tudo o que um dia ela sonhou se desfez no ar.

A angústia que tomava conta de si vinha amarga assim como seu café. Ela sabia que voltar a preencher-se dos mesmos sonhos seria como pegar fumaça com as mãos.

Inútil!

Era necessário, então, abrir as janelas e varrer a cara. Deixar novamente o brilho tomar conta do espaço e principalmente de si mesma.

As coisas tinham que ser diferentes.

Tinham...

Ao fim de seu cigarro e com a xícara vazia sobre a mesa, um pouco mais consciente de si e do nada ao seu redor, ela murmurou:

- Quero respirar, apenas respirar...

Dito isso, acendeu mais uma cigarro e lhe serviu outra xícara de café.


[renato ribeiro]

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Que o teto desabe!

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A casa estava morta.

O escuro e o silêncio da noite tomavam conta de tudo. Da sala, do quarto, de sua mente. Uma aspirina, um copo d’água e sua cabeça despencara no travesseiro como se pesasse uma tonelada. Isso porque os pensamentos estavam adormecendo.

Ele não voltaria mais, e se voltasse nada seria como antes.

Ela queria, por uma noite a mais, sentir o peso do corpo dele sobre o seu. Ver ao seu lado o lençol desenhando as curvas de seu corpo.

Ela queria...

O tempo escorria vagarosamente e, sem muito que fazer, ela revisava em sua mente a imagem das rachaduras no teto de seu quarto escuro. Por enquanto nada demais, mas era sabido que aumentariam, que as manchas escureceriam mais.

A umidade se espalhava.

Ela cultivava a certeza de que o teto, uma hora ou outra, não aguentaria e cairia sobre sua cabeça e por isso tamanha admiração. Sem o teto teria não mais rachaduras e manchas, mas o céu vestido de estrelas.

Ela apenas queria...

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[renato ribeiro]

segunda-feira, novembro 22, 2010

Sem imagem, apenas rotina!

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A mão já não escorre pelo papel como antes. As imagens acabaram. O coração murchou. Dentro de mim um deserto. Quase final. Notícias de jornais já não preenchem mais nada. Quero algo passional. Café forte. Olhos arregalados. Sempre. A noite mal dormida interfere na tarde chuvosa. Caio Fernando também está vazio, hoje. Suas palavras que antes preenchiam os pulmões como ar, agora sugam. Esvazia. Talvez seja a rotina das palavras. Sempre as mesmas. Não as do Caio Fernando, as minhas. Ou sensação de falta de sei lá o quê, sei lá aonde. Fragmentos... Fragmentos... Fragmentos... Busco algo que chegue a sufocar de tanto ar. Inteiro. Algo que não seja apenas aqueles dois, ou um visconde qualquer pela metade. Hoje não li o jornal. Amanhã, talvez, também não. Quando não se se reconhece por dentro, o que vem de fora parece amargo demais. Café com açúcar, sempre! E forte. Mesmo que ardam os olhos. Assim, quem sabe, muda-se a rotina das palavras. Que são poucas. Enfim... apenas rotina. Ponto final.

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[renato ribeiro]

sexta-feira, outubro 15, 2010

Um para dois.

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one: number 31 (1950) - Jackson Pollock


(Duas pessoas de frente para o quadro de Pollock)

1 - Não consigo enxergar bem. A imagem está embaçada.

2 - Talvez os olhos estejam cansados.

1 - Talvez. Da última vez não prestei muita atenção no que me mostrava. Simplesmente estava...

2- Eu percebi.

1 - ‘Me desculpa’.

2 - Não se preocupe, estou acostumado a ver as coisas pelos meus olhos... apenas. Uma hora voltaria a acontecer.

1 – É... está acontecendo e os minutos estão contados.


(Pausa. Os dois voltam-se novamente para o quadro)

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1 - Talvez seja o cansaço.

2 - Cansaço?

1 - Dos meus olhos... Os meu estão embaçados.

2 - É... Você já disse!

1 - Ou talvez seja o tempo. Passa tão rápido que que não consigo ver.

2 - Falta enxergar.

1 - Talvez.

(Pausa)

2 - Tente prestar mais atenção desta vez, não quero ficar exausto. Olhar por dois cansa mais.
1 - Vou tentar. Estou tentando.
2 - Ver e enxergar?
1 - Os dois.
2 - É... os dois. Esse momento é para dois.
1 - Talvez por isso os minutos contados.
2 - Talvez.
1 - É... (pausa) Melhor comprarmos comida. Com a boca cheia os olhos descansam.

(Pausa rápida)

2 - (Com os olhos fixos no quadro) É... talvez...

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sábado, maio 01, 2010

"Libertas quae sera tamem"!

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Praça cheia. Estruturas metálicas. Tapetes de serragem. O circo foi montado! No dia em que deveria haver liberdade, tem-se o cerceamento da geral. “Posso passar pela praça Tiradentes, moço?”, pergunto ingenuamente. O outro indivíduo ‘afetivamente’ responde: “Tem crachá de identificação?” (...) urgh! Mal sabia que eu era o palhaço daquele picadeiro! Se bobear era preciso digital exposta em tela de plasma para atravessar a rua. No ponto mais alto do picadeiro pessoas de grande importância. Trapezistas, malabaristas, ilusionistas... e por aí vai a banda! Tão importante que seus nomes me fogem da cachola. A importância ocupa muito mais espaço na cabeça e como minha cabeça anda cheia demais, fica sendo aquela lá mesmo. É, esse aí mesmo. Os Barões! Tudo ali respira pura formalidade...

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(Fade in)

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- Essa bandeira é de que partido?

- Oi?!

- Essa bandeira... é de que partido?

- Um segundo. (olha para a bandeira) acho que é do...

- Ah, sim...

- Na verdade só estou aqui pelo dinheiro.

- Verdade?!

- Pagam R$30 para balançar a bandeira.

- Ah... se soubesse antes!

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(Fade out)

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... hinos, apresentações, exaltação a liberdade, (Des)valores de Minas, discursos e tiros, tiros, tiros! Um verdadeiro pagode matinal! O Tiradentes lá, de frente, ouvindo tudo quanto é palavra cuspida, babada, escarrada. Nessa hora, se fosse possível, ele se enfocaria novamente, mas desta vez por livre e espontânea vontade. E para finalizar este freakshow, a honra máxima do estado. Medalha da inconfidência jogada aos baldes! “Hei, você aí, quer ganhar a Comenda?” – perguntam. O outro responde: “Encomenda de quê?” Out! E dali discursos e mais discursos. “Sabia que a mãe do sabiá sabia que sabiá sabia assobiar”, “Três pratos de trigo para três tigres tristes”, “Um limão, dois limões, meio limão”. Por fim... "Libertas quae sera tamem". Fim do circo, esvaziamento do local, limpeza... Na cachola fica a impressão de que nada aconteceu, tal qual esta postagem...

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[renato ribeiro]

sábado, abril 10, 2010

Entre linhas!

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I
O mar calmo, sem ondas, sem quebras. O sal continua a arder os olhos, mas a boca já se acostumou com o gosto. A transparência da água permite ver os pés afundarem suavemente na areia. Imagem distorcida assim como os pensamentos. Ambos afundam! Enquanto os olhos vermelhos vagam pelo horizonte, os pés, cada vez mais, são engolidos. É fim de tarde. Ao longe, o resfriar do sol na água morna – sem ondas; os pensamentos também. Mornos!
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II
Aqui, só os corredores com luzes apagadas
E o silêncio em caixas mofadas.
Faltam ventos e novos lugares!
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[renato ribeiro]

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Chuva!

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“Desde o fim do ano passado, a chuva causou 11 mortes em Minas, segundo balanço do órgão. O total de pessoas desalojadas chega a 9.252. Por sua vez, o de desabrigados soma 1.141 crianças e adultos. A estatística ainda aponta 156 imóveis destruídos e outros 443 mil danificados.”
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Estado de Minas, 22 de janeiro de 2010.
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A chuva cada vez mais forte. Eletrodomésticos desligados por medo de curto. Casa quase escura, silenciosa. A menina na sala vendo a chuva escorrer pela janela, a mãe recostada no sofá. Ninguém havia chegado, a chuva não permitia. O bolo encontrava-se à mesa, docinhos em volta e os copos na bandeja. Guaraná Antártica, quente! As velas ao lado do bolo. Oito. “A chuva deve ter atrasado os convidados”, murmurou a menina ainda com os olhos fixos na janela. Ansiosamente, ela esperava que chegassem. O coração já não cabia mais em seu peito e a chuva cada vez mais forte. A mãe espiava os olhos brilhantes da menina, olhos cada vez maiores. “Com essa chuva ninguém vem.”, afirmou a mãe para a filha angustiada. Ouviu-se mais um estrondo e um grito abafado pela barra do vestido. A luz apagara, estavam as duas no escuro. “Ainda bem que os eletrodomésticos estão desligados”, disse a mãe enquanto percorria a casa a procura de velas. Oito da noite. Ninguém mais viria. O choro fino da menina se ouvia como um suave zumbido. “Amanhã o sol aparecerá e os outros também”, disse a mãe já sem jeito pela insatisfação da filha. Sobre a mesa, ponto a ponto, as velas clareavam a sala. Oito! As velas - agora postas no bolo - haviam sido acesas, colorindo a sala escura. Aos poucos a menina aproximou-se da mesa, encarando, com seus grandes olhos encharcados, o balançar das chamas. “Faça um pedido.”, disse gentilmente a mãe. A menina então fechou os olhos fortemente, encheu os pulmões de ar e assoprou... Todas, exceto uma, apagaram. Talvez por desejar a sala com cores. A chuva continuava cada vez mais forte. Relâmpagos! “Talvez amanhã eles apareçam.”, disse a menina com uma voz fina, impedindo que a mãe partisse o bolo. Trovoada! O estrondo foi tão grande que a menina saltou para o colo da mãe. Oito anos! Carinhosamente, a mãe a levou para o seu quarto, a deitou na cama e deitou-se ao lado dela. Abraçadas, a menina pôde sentir o calor e a respiração da mãe e a mãe o acalmar da respiração da filha, até que ambas adormeceram...
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[renato ribeiro]